Fichamento: "A Dialética Interna da Cultura e o Design" de Vilem Flusser
Vilém Flusser define o objeto como aquilo que se interpõe entre o homem e o mundo, tornando-o objetivo e problemático. A cultura surge quando o ser humano transforma obstáculos em objetos de uso, criados para superar outros obstáculos. Essa operação, contudo, produz uma contradição: quanto mais o homem cria cultura, mais ela própria o impede de avançar. Essa é a dialética interna da cultura, na qual o progresso técnico e científico gera novas formas de obstrução e reduz o espaço da liberdade.
Os objetos de uso são projetos ou designs criados por outros homens, mediações entre pessoas e não meras coisas. O design, portanto, é um ato ético e político, que exige responsabilidade (responder pelos outros por meio das formas criadas). Quando o designer foca apenas na utilidade, seu projeto se torna um obstáculo; quando privilegia o aspecto comunicativo e intersubjetivo, amplia a liberdade. Desde a Renascença, no entanto, a cultura tem cultivado um olhar “pagão”, voltado para o objeto em si, resultando em uma sociedade que idolatra a técnica e esquece a comunicação.
Flusser vislumbra, contudo, uma mudança. Os objetos imateriais (como softwares e redes) revelam o aspecto mediador do design, tornando-se “ídolos transparentes” que deixam ver os outros por trás deles. Ao lado disso, a consciência da efemeridade de toda criação pode levar a um fazer mais responsável, no qual os objetos de uso deixem de ser barreiras e se tornem meios de diálogo e liberdade entre os homens.
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